Brasil: força criativa em busca de seu lugar

No sábado, 13 de junho, às 19h (horário local), a seleção brasileira masculina de futebol entra em campo no estádio MetLife, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, para a estreia na Copa do Mundo. Milhões de brasileiros se unirão para torcer pelo hexacampeonato.
A cada quatro anos, a Copa é o momento em que milhões de brasileiros se veem num espelho. A imagem refletida pode definir se o país está por cima da carne seca ou se é apenas um bando de vira-latas incapazes de confiar no próprio taco.
Em 1958, o cronista Nelson Rodrigues escreveu na revista Manchete Esportiva sobre o "complexo de vira-latas". Para ele, o brasileiro se colocava em inferioridade em relação ao resto do mundo. Mas bastaria estar com o caneco em mãos para o jogo mudar.
O jornalista Claudio Leal, doutor em história, teoria e crítica de cinema pela ECA-USP, afirma que o Brasil tem como virtude a beleza de suas contradições. Uma delas é a convivência de uma cultura popular de alto nível com o horror político, a concentração de renda e a violência.
Exemplos dessa exportação cultural não faltam. No cinema, "Ainda Estou Aqui" venceu o Oscar de melhor filme internacional, e "O Agente Secreto" foi indicado em diversas categorias. Caetano e Bethânia venceram o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. Na literatura, Ana Paula Maia está entre os seis finalistas do International Booker Prize.
Nas artes plásticas, Marina Perez Simão figura em 85º lugar no Hiscox Artist Top 100. O Global Soft Power Index 2026 mostra que o Brasil subiu duas posições na classificação geral entre 193 países. Em 2025, o Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions concedeu ao Brasil o título de Creative Country of the Year.
Na moda e beleza, a Granado conta com dez lojas próprias no exterior, em países como França, Inglaterra, Portugal e Estados Unidos. A Farm opera lojas nos EUA, França, Itália, Dubai, Argentina e México.
Segundo Claudio Leal, a cultura brasileira de maior força ainda deve muito à combinação de elementos culturais africanos, indígenas e ibéricos. As artes e a indústria da beleza não podem ficar alheias às mudanças na sociedade do consumo e à emergência de vozes políticas negras, indígenas, femininas e LGBTQIAPN+.
Julio Ludemir, idealizador da Festa Literária das Periferias (Flup), pondera que, apesar da excelência dos filmes de Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, estamos falando de dois homens brancos heterossexuais. Ele acredita que o Brasil periférico, negro e indígena terá mais chances de sucesso internacional.
O historiador e antropólogo Marlon Marcos, professor da Unilab, lembra que a literatura de Jorge Amado ganhou o mundo nos anos 1940 e 1950 falando de uma periferia baiana. O Cinema Novo foi acusado de estetizar a pobreza para gringo ver. Hoje, a favela produz cultura, arte e filosofias.


