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Música e bem-estar: o que a ciência revela

Por Romances e Leituras · · 4 min de leitura
Música e bem-estar: o que a ciência revela
Foto: (Divulgação) AUTOR: DANIEL J. LEVITIN/EDITORA OBJETIVA

Poucas experiências atravessam tantos momentos da vida quanto a música. Ela está presente em comemorações, lutos, viagens, encontros e até nas tarefas mais comuns do dia a dia. Uma canção pode despertar uma memória distante, mudar o humor ou fazer o corpo se mover sem que a pessoa perceba. Nas últimas décadas, a ciência tem mostrado que ouvir música mobiliza diferentes regiões do cérebro ao mesmo tempo e influencia processos ligados à memória, às emoções, ao movimento e à percepção da dor.

Daniel J. Levitin chegou à neurociência depois de trabalhar como produtor e engenheiro de som na indústria musical. Antes de se tornar professor na Universidade McGill, no Canadá, ele conviveu com músicos profissionais e conheceu o funcionamento dos estúdios. Esse percurso dá ao livro “A cura pela música” (Objetiva) uma perspectiva diferente dos livros de divulgação científica convencionais.

Como o cérebro processa a música

Quando uma pessoa ouve música, o corpo reage de várias formas. Não existe um ponto do cérebro que processe tudo de forma concentrada. O que ocorre é uma ativação simultânea de redes que normalmente funcionam separadas: o córtex auditivo, o hipocampo (memória), a amígdala (emoções), o cerebelo e o sistema motor (ritmo), o córtex pré-frontal (atenção) e o sistema dopaminérgico (prazer e recompensa). Poucas experiências mobilizam tantas regiões ao mesmo tempo.

O cérebro não ouve música de forma passiva. Ele antecipa. A cada compasso, constrói previsões sobre o que vem a seguir. Quando a expectativa é confirmada ou surpreendida de forma que faz sentido, o sistema dopaminérgico dispara. Esse mecanismo produz prazer e, em casos mais intensos, os arrepios pelo corpo.

Música, memória e movimento

O livro traz relatos de pacientes com Alzheimer em estágios avançados. Pessoas que já não reconhecem familiares ainda conseguem cantar músicas inteiras da juventude. Levitin explica que a memória musical depende de circuitos que permanecem preservados por mais tempo do que outras redes cognitivas afetadas pela demência. Uma música familiar não precisa de codificação recente para ser reconhecida, pois está gravada em camadas mais antigas da memória. Esse fenômeno não reverte a doença, mas pode melhorar temporariamente o estado emocional do paciente e facilitar o contato com cuidadores.

Situação parecida ocorre com pacientes que sofreram AVC e perderam parcialmente a fala. Em alguns casos, a capacidade de cantar permanece preservada, mesmo quando produzir frases espontâneas não é mais possível. Cantar recruta redes cerebrais diferentes daquelas usadas na fala convencional. Hoje o canto é visto como uma via alternativa para reaprender a linguagem.

No Parkinson, a música age de outra maneira. Muitos pacientes conseguem caminhar de forma mais fluida quando acompanham um ritmo externo constante. O cérebro usa o pulso musical como uma marcação que substitui temporariamente o sinal interno comprometido pela doença. A técnica tem nome clínico, estimulação auditiva rítmica, e já integra programas de reabilitação em vários países.

Efeitos sobre a dor e limites das promessas

Estudos clínicos mostram que ouvir música durante e após procedimentos médicos pode reduzir a percepção da dor, diminuir a ansiedade e favorecer o relaxamento. A música não elimina a dor, mas age em múltiplos mecanismos: desvia a atenção, reduz os níveis de cortisol e ativa o sistema de recompensa. A música escolhida pelo próprio paciente produz efeitos maiores do que playlists padronizadas selecionadas por médicos ou pesquisadores.

Uma mesma canção pode tranquilizar uma pessoa e incomodar outra. Os efeitos dependem da história de vida, das memórias associadas, do contexto cultural e das preferências individuais. Levitin é cético em relação a promessas de frequências “milagrosas” como 432 Hz ou 528 Hz, cujas supostas propriedades curativas não encontram amparo em estudos clínicos. O que funciona não é o som isolado, mas a combinação entre ritmo, melodia, harmonia, significado pessoal e memória afetiva.

Ao longo da obra, Levitin separa o que os estudos mostram com consistência do que permanece especulativo. Há evidências sólidas sobre os efeitos da música na dor pós-operatória, nos sintomas motores do Parkinson, na qualidade de vida de pacientes com demência e na recuperação de linguagem após AVC. Há evidências promissoras sobre ansiedade, estresse e sono. E há afirmações populares que ele examina e descarta. O autor não defende que a música cura tudo, mas mostra que ela atua sobre mecanismos biológicos reais, capazes de influenciar emoções, memória, atenção e movimento.

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