7 filmes para desacelerar e sentir
Ao acompanhar personagens que vivem conflitos humanos, o público desacelera por algumas horas e encontra espaço para olhar para dentro de si.

O cinema, muitas vezes, serve como uma forma de escapar da realidade. No entanto, também pode funcionar no sentido oposto. Em vez de afastar o espectador da vida, algumas produções cinematográficas têm o poder de devolvê-lo a ela. São histórias sem grandes reviravoltas, protagonizadas por pessoas comuns que lidam com dúvidas, perdas, afetos e pequenas alegrias, capazes de despertar uma percepção que a correria do dia a dia costuma adormecer.
Ao acompanhar personagens que vivem conflitos humanos, o público desacelera por algumas horas e encontra espaço para olhar para dentro de si. Esses filmes não oferecem respostas prontas, mas ampliam a capacidade de observar, sentir e habitar o presente. Pensando nisso, a Vida Simples selecionou sete filmes que encontram beleza no cotidiano e mostram que, muitas vezes, é nas histórias mais simples que a vida revela sua maior profundidade.
‘Dias Perfeitos’ (2023)
No filme dirigido por Wim Wenders, o protagonista Hirayama, interpretado por Koji Yakusho, trabalha como faxineiro de banheiros públicos. Todos os dias, ele acorda no mesmo horário, ouve as mesmas fitas cassete no carro, fotografa as mesmas árvores e almoça sozinho no parque. Essa rotina não é apresentada como uma prisão, mas como uma forma de presença que muitos buscam alcançar. O filme não explica Hirayama, e essa lacuna é proposital. Fragmentos do passado aparecem e somem sem que Wenders se sinta obrigado a organizá-los em uma narrativa linear. O diretor parece menos interessado em contar quem esse homem foi do que em mostrar quem ele é agora. Há um conceito japonês que atravessa o filme, o komorebi, que descreve a luz do sol filtrada pelas árvores, uma beleza que só existe para quem olha com atenção. Onde assistir: MUBI.
‘Nomadland’ (2020)
Dirigido por Chloé Zhao, o longa acompanha Fern, interpretada por Frances McDormand, que perdeu o emprego quando a empresa que sustentava sua cidade fechou. Ela vendeu o que tinha, comprou uma van e começou a se mover. “Nomadland” acompanha essa travessia pelos Estados Unidos de maneira quase documental, com parte do elenco formada por nômades reais que interpretam versões de si mesmos. A vida de Fern é uma resposta ao colapso econômico e também uma escolha genuína, já que ela poderia parar e repetidamente não para. O filme não romantiza nem condena esse modo de viver. A diretora propõe que, durante algumas horas, o espectador possa enxergar as incertezas como uma parte da vida. Onde assistir: Disney+.
‘Frances Ha’ (2012)
Frances tem 27 anos, mora em Nova York e trabalha como dançarina em um grupo que não a promove. Ela faz tudo isso com uma energia levemente desastrada, que oscila entre o encantador e o inquietante. O filme, dirigido por Noah Baumbach, é filmado em preto e branco e tem uma cadência mais lenta. A produção se recusa a fazer de Frances uma personagem para ser admirada ou lamentada. Baumbach e Greta Gerwig, que coescreveu e interpreta a protagonista, escolheram filmar a vida adulta jovem sem glamorizar o caos nem moralizar sobre ele. Frances não está em crise existencial, está vivendo uma fase que vai durar um pouco mais do que ela esperava. É um filme sobre a distância entre quem você imaginou que seria e quem você está sendo. Onde assistir: MUBI.
‘Lost in Translation’ (2003)
Na trama de Sofia Coppola, Bob Harris, interpretado por Bill Murray, está em Tóquio para filmar um comercial de uísque. Charlotte, vivida por Scarlett Johansson, está na cidade porque o marido está trabalhando. Nenhum dos dois sabe muito bem o que fazer consigo. A diretora constrói um filme sobre o estado de estar levemente fora de lugar, levemente insone, suspenso entre uma vida que se foi e outra que ainda não começou. Existe um tipo de conexão que só acontece em trânsito, entre pessoas que não pertencem ao mesmo lugar e que dura o tempo de uma viagem. Bob e Charlotte não se apaixonam da forma que os filmes costumam mostrar. Eles se encontram, e isso é suficiente naquele momento. Onde assistir: Apple TV+ e Amazon Prime Video.
‘Drive My Car’ (2021)
Adaptado de um conto de Haruki Murakami, o filme de Ryusuke Hamaguchi acompanha Yusuke Kafuku, um ator e diretor de teatro que perdeu a esposa. Meses depois, ele precisa ensaiar uma peça em uma cidade desconhecida, indo trabalhar todos os dias em um Saab vermelho dirigido por uma motorista que mal conhece. Hamaguchi expandiu o ponto de partida para três horas sem que nenhuma delas pareça desnecessária. Aos poucos, as conversas dentro do carro se tornam o espaço onde o luto começa a se mover. O diretor coloca as cenas mais densas dentro de um automóvel em movimento, um lugar onde não há para onde olhar além do para-brisa e de onde não dá para escapar do que está sendo dito. Onde assistir: MUBI e Amazon Prime Video.
‘Aftersun’ (2022)
No filme de Charlotte Wells, Sophie tem onze anos e viaja com o pai, Calum, para um resort na Turquia. Anos depois, já adulta, Sophie revisita imagens gravadas em câmera de MiniDV e tenta entender sua relação e o que estava acontecendo com o pai naqueles dias ensolarados. Wells estreou na direção com um filme que funciona em duas temporalidades e que diz mais pelo que não mostra. A infância de Sophie é filmada com a textura granulada da memória, e os silêncios de Calum, interpretado por Paul Mescal, carregam o peso de algo que a câmera da menina não conseguia ver. “Aftersun” é um filme sobre o que escapa quando somos jovens demais para reconhecer e sobre a dor de entender tarde demais. Onde assistir: MUBI e Amazon Prime Video.
‘Dor e Glória’ (2019)
No longa de Pedro Almodóvar, Salvador Mallo, interpretado por Antonio Banderas, é um cineasta veterano que não consegue mais trabalhar. Dores físicas, bloqueio criativo, saudade de uma infância pobre no interior da Espanha e o rosto de um primeiro amor ficaram para trás. Com esse inventário de perdas, Almodóvar filmou a si mesmo. O filme não é autobiográfico de forma literal, mas apresenta outro tom na filmografia do diretor, conhecido por emoções grandes e cores saturadas. “Dor e Glória” é contido e lento, organizando a vida do protagonista em torno de uma série de perdas que se acumularam até que criar se tornou impossível. O que o filme propõe é que entender de onde você veio e o que te custou chegar até aqui pode ser a única forma de voltar a fazer qualquer coisa. Onde assistir: Amazon Prime Video e Apple TV+.

