segunda-feira, 17 de agosto de 2026Noticias em tempo real
Romances e Leituras
Romances e Leituras
Notícias

Emmanuel Carrère: por que ler o mestre das contradições

Por Romances e Leituras · · 6 min de leitura
Emmanuel Carrère: por que ler o mestre das contradições
Emmanuel Carrère: por que ler o mestre das contradições

Quem abre um livro de Emmanuel Carrère dificilmente sai dele com respostas prontas. Em vez de organizar o mundo em certezas, o escritor francês faz o contrário: mergulha em histórias reais marcadas por tragédias, contradições e dilemas morais para investigar aquilo que permanece sem explicação.

Em seus livros, reportagem, autobiografia, ensaio e romance se misturam em narrativas que recusam conclusões fáceis e transformam o próprio autor em parte da investigação. É essa disposição de expor suas dúvidas enquanto tenta compreender a vida dos outros que ajuda a explicar por que Carrère se tornou uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea.

Catharina Mattavelli, especialista em literatura contemporânea, identifica o centro das suas reflexões: “Quase toda sua obra parte dessa pergunta aparentemente simples, mas muito profunda: ‘quem é esse outro?’. E é junto dessa pergunta que Carrère se coloca em cena. Há uma análise de si a partir do outro, do quanto o outro interfere direta ou indiretamente nas suas dúvidas, gratificações, hesitações, limitações e fracassos. A honestidade e a coragem de colocar a própria investigação em cena é um dos grandes encantos que nos leva a questionar também quem somos nós quando tentamos compreender o outro.”

A pergunta que aparentemente é sobre alguém se torna, ao longo da escrita, uma pergunta sobre o leitor. Esse deslocamento sustenta o interesse mesmo quando o tema é perturbador. Nascido em Paris, em dezembro de 1957, Carrère formou-se no Institut d’Études Politiques e construiu uma trajetória que inclui roteiros e direção, mas encontrou na literatura seu território mais fértil. Ao longo das últimas décadas, acumulou prêmios como o Femina, o Renaudot, o FIL de Literatura, o Prêmio da Biblioteca Nacional da França e o Princesa de Astúrias. Mas o que o consagrou não foi apenas o reconhecimento da crítica, e sim o impacto junto ao público.

A ascensão de Carrère ao centro do debate literário contemporâneo não é um acidente. Há algo na forma como ele escreve que ressoa com o que o momento pede. Catharina traça essa conexão: “Nas últimas décadas se observou o crescimento do interesse por narrativas que partem do real. Biografias, autobiografias, memórias, ensaios pessoais, jornalismo literário e relatos híbridos ocupam hoje um lugar central no mercado editorial e na crítica.” Carrère chegou cedo a esse território e o atravessou com uma radicalidade que outros não tiveram nem a coragem nem a habilidade de sustentar. Mas não é só uma questão de formato.

“Carrère se aproxima de pessoas marcadas por perdas, tragédias ou acontecimentos extraordinários, o que combina com as inquietações do nosso tempo”, diz Catharina. “Ler suas obras é conviver de frente com a complexidade e admitir que toda verdade permanece incompleta.” Num momento em que a aceleração das plataformas e a polarização dos debates tornam cada vez mais difícil sustentar a ambiguidade, Carrère desacelera, complica e não foca na resolução. A literatura, na visão que Catharina articula, carrega em si uma impossibilidade estrutural.

“Mesmo que a linguagem seja incapaz de capturar completamente a experiência humana, justamente por envolver escolhas, omissões e interpretações, a literatura de Carrère assume um espaço de investigação, dúvida e escuta para entrar justamente nesses territórios moralmente incertos, sem floreios ou filtros, assumindo a impotência e a incapacidade de encontrar respostas.” Essa honestidade sobre o que a escrita não consegue fazer é, paradoxalmente, o que confere autoridade ao que ela consegue.

Ler Carrère não é uma experiência confortável, e isso faz parte do objetivo. Catharina é direta quando fala do próprio percurso como leitora: “É muito comum sentir raiva, desgosto e até mesmo asco ao ler algumas das obras do autor. Me lembro de sentir uma forte repulsa enquanto lia ‘Um romance russo’ e ‘O adversário’. Um bom autor obriga o leitor a confrontar os próprios limites de compreensão e julgamento frente a acontecimentos extraordinários. Ele mostra com grande maestria o quanto comportamentos e complexidades humanas permanecem inexplicáveis e incompreensíveis.”

Quando as categorias morais são estáveis, quando sabemos rapidamente quem merece nossa simpatia e quem deve ser condenado, a leitura é uma confirmação. Carrère não oferece isso. A repulsa e a compaixão aparecem juntas, pela mesma pessoa, às vezes na mesma página. E o leitor percebe, incomodado, que não consegue resolver essa tensão. “Eu, particularmente, gosto de Carrère e de toda literatura que rompe com esse conforto”, destaca Catharina. “Acredito que é preciso experimentar sentimentos contraditórios durante uma leitura, que é preciso se deparar com a repulsa e a compaixão, com a indignação e a curiosidade. É preciso sentir raiva e discordar. Acima de tudo, é no mínimo gratificante compreender que essas emoções coexistem sem que uma elimine a outra, para que assim a literatura deixe de ser um espaço de confirmação das próprias convicções para tornar-se um espaço de questionamento.”

“Ioga” (Alfaguara), lançado em 2020, é talvez o caso mais extremo desse método. Anunciado como um livro sobre meditação, transformou-se em algo completamente diferente durante o processo de escrita. “O livro transforma-se gradualmente em um relato sobre o colapso psíquico, a depressão profunda, o transtorno bipolar, o luto e os limites da própria escrita”, explica Catharina. A série de atentados terroristas em Paris interrompeu o retiro de meditação que Carrère havia iniciado para escrever o livro. E essa interrupção entrou no texto também, com tudo o que arrastou consigo.

O resultado é uma obra que confronta diretamente o modelo dominante de narrativa pessoal. Carrère entregou um livro que não supera nada, apenas entende aspectos tidos como negativos da vida como condições da existência. Catharina define o alcance dessa escolha: “Em uma época obcecada por narrativas de sucesso, equilíbrio e autossuperação, Carrère escreve um livro que aceita a desordem, a fragilidade e a incompletude como partes inevitáveis da existência.” Não há lição ao final. Há, no melhor dos casos, a companhia de alguém que também não sabe.

Para quem ainda não conheceu a obra de Carrère, a pergunta sobre a porta de entrada tem uma resposta precisa. Catharina recomenda “O Adversário” (Alfaguara), livro que reconstrói a história real de Jean-Claude Romand, um homem que durante quase vinte anos sustentou uma identidade falsa antes de assassinar a própria família. “Me recordo sempre como uma experiência muito marcante e desesperadora acompanhar uma pessoa que consegue viver durante décadas dentro de uma mentira absoluta, que a levou a atos extremos para de alguma forma fugir da própria mentira.” É um livro de impacto imediato, que concentra boa parte das obsessões do autor — como mentira, identidade e os limites da compreensão — em uma narrativa que não larga o leitor.

Para quem já conhece e quer ir mais fundo, a indicação é “Um Romance Russo” (Alfaguara). “Mais do que nunca, nesse livro, o autor mergulha fundo nisso de compreender as forças familiares, históricas, afetivas e psicológicas que moldaram sua identidade. Há uma reflexão radical sobre o próprio ato de escrever, que se mistura com desejo, exposição, ciúmes e provocação.” O livro cruza o passado familiar com o relacionamento que Carrère vivia enquanto escrevia, e essa sobreposição diz algo que o autor reconhece como parte central do seu processo: a escrita não é um exercício de distanciamento, mas uma forma de estar no mundo, com todas as suas contradições.

Leia também