Por que pisar na grama ainda é proibido?

O psicanalista José Milton Castan Junior reflete sobre as razões que levam as pessoas a seguirem regras, muitas vezes sem questioná-las. A pergunta "Por que é proibido pisar na grama?", presente na música de Jorge Ben, serve como ponto de partida para analisar como as proibições moldam o comportamento desde a infância.
Castan Junior relembra a própria experiência aos sete ou oito anos, quando viu uma placa em um parquinho com os dizeres "proibido para maiores de sete anos". Para ele, essa foi a primeira vez que uma imposição veio do mundo, e não dos pais ou professores. O psicanalista observa que as placas e regras geralmente aparecem no formato negativo, dizendo o que não se pode fazer, e não o que é permitido.
Essas mensagens, repetidas ao longo da vida, vão se acumulando e formando o que ele chama de um "estatuto pessoal". Frases como "menino não faça isso" ou "agradece sua tia" ajudam a construir um repertório de regras que a pessoa segue, muitas vezes com medo de uma punição implícita. "O tempo passa e essa mesmíssima lógica vai moldando, vai conformando nosso caráter, o que posso sentir, desejar ou expressar", afirma.
O psicanalista também destaca que nem todas as barreiras são visíveis. Ele conta que, na escola, tinha um desejo enorme de pedir uma colega chamada Helena em namoro, mas nunca conseguiu. A barreira, nesse caso, era a diferença de classe social, internalizada como vergonha. "Era o medo de não estar à altura de Helena e ser rejeitado", lembra.
Limite e repressão
Castan Junior faz uma distinção entre limite e repressão. Para ele, os limites são necessários para organizar a sociedade e evitar que a liberdade de um prejudique o outro. Ele cita o farol vermelho e a ética profissional como exemplos de limites que, mesmo incômodos, sustentam a convivência.
A repressão, por outro lado, tem um caráter punitivo e de cerceamento de direitos. "Limite e repressão são restrições, uma legal e legítima, a outra indevida e ilegal", explica. A diferença não está no desconforto que ambas provocam, mas na função que cumprem. Um sustenta o convívio, o outro apenas reduz alguém.
O psicanalista também aborda a questão da culpa. Ele diz que a culpa pode funcionar como um instrumento de aprendizagem quando um desejo legítimo traz consequências negativas. No entanto, existe também a culpa que surge simplesmente por transgredir uma regra social, moral ou legal. O caso mais comum nos consultórios, segundo ele, é o de um desejo legítimo que não trará dano real, mas que gera culpa por causa de mensagens internalizadas na infância.
Castan Junior usa o conceito de "mensagens bruxas" para descrever frases repetidas na infância que moldam reações automáticas na vida adulta. Uma criança que ouviu que "fala demais" pode, anos depois, sentir medo de falar em público. A barreira não nasce do palco, mas de uma frase antiga que a pessoa carrega sem perceber.


