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Por que não podemos pisar na grama?

Por Romances e Leituras · · 2 min de leitura
Por que não podemos pisar na grama?
Por que não podemos pisar na grama?

Em uma reflexão sobre as regras que moldam o comportamento humano, o psicanalista José Milton Castan Junior analisa como as proibições, desde a infância, influenciam a vida adulta. A música "Porque é proibido pisar na grama", de Jorge Ben, serve como ponto de partida para questionar o sentido das barreiras que nos são impostas.

Castan Junior relembra sua própria experiência com uma placa em um parquinho que dizia "proibido para maiores de sete anos" como um dos primeiros contatos com uma regra vinda do mundo, e não da família ou da escola. Ele observa que a comunicação de normas geralmente ocorre no formato negativo, moldando o psiquismo a partir do que não se pode fazer.

O psicanalista diferencia limites de repressão. Os limites são vistos como organizadores sociais, como o farol vermelho, que, mesmo incômodos, sustentam a convivência. Já a repressão tem caráter punitivo e de cerceamento de direitos. A diferença está na função de cada um: enquanto o limite sustenta o convívio, a repressão apenas reduz alguém.

Castan Junior também aborda as barreiras internas, que não vêm de placas visíveis. Ele cita o conceito de "mensagens bruxas", frases repetidas na infância que moldam reações automáticas na vida adulta. Uma criança que ouviu "você fala demais" pode internalizar que falar não é bem-vindo e sentir medo de um microfone anos depois, sem perceber a origem dessa barreira.

Sobre a culpa, o psicanalista a descreve em três cenários. No primeiro, a culpa surge de um desejo legítimo que trouxe consequências negativas, funcionando como um instrumento de aprendizagem. No segundo, a dor vem de transgredir algo que a sociedade não autoriza. O terceiro caso, considerado o mais comum, é quando o desejo é legítimo e não trará danos reais, mas a pessoa ainda assim se sente culpada.

O peso das regras na vida cotidiana

A reflexão sobre as proibições e seus significados se estende para o dia a dia. Muitas pessoas carregam regras internalizadas que não são mais impostas por ninguém, mas continuam a guiar suas ações. A pergunta "por que é proibido pisar na grama?" ilustra como algumas barreiras persistem sem justificativa clara, apenas porque foram aprendidas e obedecidas desde cedo.

O psicanalista destaca que a vida nos faz questionar muitos porquês, entre a curiosidade para entendê-la e as necessidades do cotidiano. Passamos colados e distantes das possíveis respostas, alternando entre o pragmático e o íntimo. A pergunta sobre a grama é uma inquietação que, conforme crescemos, nos acostumamos a não ter resposta.

Castan Junior recorre a Freud para explicar que a busca pelo prazer e a fuga da dor organizam praticamente todo comportamento humano. É essa equação, ajustada pelo que cada um aprendeu, que decide o que vamos perseguir e o que vamos evitar pelo resto da vida. As normas e imposições culturais e religiosas se acumulam em um repertório de regras que precisam ser cumpridas sob a ameaça implícita de punição.

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