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Jeferson Tenório: literatura contra a vida

Por Romances e Leituras · · 3 min de leitura
Jeferson Tenório: literatura contra a vida
Jeferson Tenório: literatura contra a vida

O escritor Jeferson Tenório, autor de “O Avesso da Pele”, concedeu entrevista à revista Vida Simples e falou sobre seu processo criativo, a relação entre dor e escrita, o papel da intuição na literatura e o crescimento do protagonismo negro na produção literária brasileira. Vencedor do Prêmio Jabuti de Romance Literário em 2021, Tenório também é autor de “De Onde Eles Vêm”.

Em “O Avesso da Pele”, o livro narra a história de Pedro, um jovem negro que tenta reconstruir a trajetória do pai, Henrique, morto em uma abordagem policial. A narrativa percorre a infância, a juventude, os relacionamentos e a vida profissional de Henrique, mostrando como o racismo atravessou diferentes momentos de sua vida. A obra aborda temas como identidade, memória, afeto, paternidade e pertencimento.

Processo criativo

Sobre escrever dores de personagens, Tenório afirmou que não costuma escrever sobre as próprias dores enquanto ainda estão vivas. Ele citou o intelectual francês Roland Barthes para explicar que escrever literatura é passar pela dor uma segunda vez, mas isso não significa doer durante a escrita. Para o autor, o escritor precisa estar lúcido e já ter refletido sobre o que aconteceu para conseguir simular a dor. “Escrever para mim é uma alegria, porque é um registro de que apesar da dor e do sofrimento ainda conseguimos criar histórias”, disse.

O escritor também disse que não acredita que escrever proporcione autoconhecimento. Para ele, a leitura é mais importante nesse sentido, pois é uma forma de organizar o mundo interior. “Faço literatura porque discordo da vida”, afirmou.

Intuição e leitura

Tenório destacou que todo trabalho criativo carrega uma dose de intuição. Segundo ele, existe algo de misterioso na criação que não passa pela lucidez ou consciência. “Escrever sem intuição é escrever sem vida”, declarou.

O autor afirmou que grande parte dos livros que leu mudou sua forma de ver a vida, citando nomes como Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Carolina Maria de Jesus, James Baldwin e Machado de Assis. “Creio que hoje eu não saberia viver sem literatura”, completou.

Protagonismo negro

Para Tenório, o aumento do protagonismo negro na literatura não veio de forma natural, mas depois de muita luta de intelectuais, coletivos e movimentos negros. Ele citou obras como “Torto Arado”, de Itamar Vieira Junior, “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, e “Solitária”, de Eliana Alves Cruz, como exemplos de literatura de alta qualidade estética com protagonistas negros.

Festa Literária Internacional de Niterói

Nesta quinta-feira, 13 de agosto, às 20h, Jeferson Tenório participa da Flin (Festa Literária Internacional de Niterói) ao lado de Ana Maria Gonçalves e Ynaê Lopes dos Santos. A mesa discute memória, identidade e a construção de novas narrativas para o Brasil. O evento tem como tema “Territórios das Palavras” e homenageia a antropóloga e filósofa Lélia Gonzalez. A programação gratuita reúne escritores, artistas, pesquisadores, educadores e leitores no Reserva Cultural de Niterói, com nomes como Emicida, Eliana Alves Cruz, Conceição Evaristo, Lilia Schwarcz, Ana Maria Machado, Rosiska Darcy, Ruy Castro, Cidinha da Silva, Luiz Antonio Simas, Tatiana Salem Levy e Mariana Salomão.

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