Por que é proibido pisar na grama?

Acordei com uma vontade de saber como eu ia e como ia meu mundo. A frase, que abre a reflexão sobre a música “Porque é proibido pisar na grama”, de Jorge Ben, serve de ponto de partida para uma análise sobre as regras que nos guiam. A letra questiona necessidades concretas e subjetivas, alternando entre o pragmático da vida adulta e os desejos humanos. A pergunta central, que poderia sair da boca de uma criança, representa as inquietações que, com o tempo, nos acostumamos a ignorar.
Uma possível interpretação para a questão seria: “O que está me parando?” ou “Por que está me parando?”. O psicanalista José Milton Castan Junior lembra que, desde cedo, o mundo nos impõe regras. Ele cita a memória de uma placa em um parquinho que dizia “proibido para maiores de sete anos” como a primeira imposição que não veio de pais ou professores, mas do mundo. Ele observa que essas comunicações sempre vêm no formato negativo, descrevendo o que não se pode fazer.
Essas sinalizações, em frases como “menino não faça isso” ou “agradece sua tia”, vão moldando o psiquismo. Com o tempo, normas culturais e religiosas se acumulam em um repertório pessoal de regras a serem seguidas sob ameaça de punição. “O tempo passa e essa mesmíssima lógica vai moldando nosso caráter, o que posso sentir, desejar ou expressar”, afirma Castan.
O psicanalista compartilha a memória de uma colega de escola, Helena, por quem sentiu um desejo enorme de pedir em namoro, mas foi impedido pelo medo de ser rejeitado por ser um “fora dos normais” em uma escola elitizada. A barreira, nesse caso, não veio de uma placa, mas de uma diferença de classe internalizada como vergonha. Ele recorre a Freud para explicar que a busca pelo prazer e a fuga da dor organizam o comportamento humano.
Castan diferencia limites de repressão. Para ele, limites são organizadores da sociedade, como o farol vermelho, que sustentam a convivência. Já a repressão tem caráter punitivo e de cerceamento de direitos. “Limite e repressão são restrições, uma legal e legítima, a outra indevida e ilegal”, explica. A diferença está na função que cumprem, e não no desconforto que provocam.
Nem toda restrição vem de uma placa real. O psicanalista introduz a diferença entre o fato e a interpretação do fato. “Subir no palco e dar uma palestra é um fato. Para uns, é o ganha-pão. Para outros, é morrer de medo. O que muda é como cada um dá significado”, diz. Ele usa o conceito de “mensagens bruxas” para descrever frases repetidas na infância que moldam reações automáticas na vida adulta.
Sobre a culpa, Castan a desdobra em camadas. Se um desejo legítimo traz prejuízo, a culpa organiza as próximas escolhas. Há também o desejo ilegítimo, em que a dor nasce da transgressão de regras sociais. O terceiro caso, o mais comum, é quando o desejo é legítimo e não trará danos reais, mas a pessoa ainda assim se sente impedida por uma culpa internalizada.


