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MPB em movimento: 8 artistas que reinventam a canção

Por Romances e Leituras · · 6 min de leitura
MPB em movimento: 8 artistas que reinventam a canção
MPB em movimento: 8 artistas que reinventam a canção

A MPB nunca foi um gênero de fronteiras rígidas. Desde que o termo passou a circular, nos anos 1960, ele se consolidou menos como uma categoria musical e mais como um espaço de encontros: entre o popular e o erudito, o regional e o urbano, a tradição e a experimentação. Essa capacidade de incorporar influências sem perder a identidade explica por que a MPB atravessa o tempo sem soar presa a uma época.

Esse espírito permanece vivo em uma geração de artistas que ganhou projeção nas últimas duas décadas. Em vez de romper com o passado, eles conversam com a herança da música brasileira, reinterpretam referências e expandem seus limites com novas sonoridades e narrativas. Para quem acredita que a MPB ficou restrita aos grandes clássicos, os oito nomes a seguir mostram que ela continua em movimento.

Liniker

Liniker apareceu para o grande público em um momento em que parecia difícil surgir uma voz realmente nova na música brasileira. A potência da interpretação chamou atenção logo de início, mas foi a consistência de sua obra que confirmou que não se tratava de um fenômeno passageiro. Em poucos anos, ela construiu uma discografia que ampliou as possibilidades da canção brasileira sem romper com sua tradição.

Em seus discos, especialmente “Caju” (2023), soul, MPB, samba, jazz e black music convivem com naturalidade. Liniker canta sobre amor, desejo, perdas e pertencimento com uma entrega rara, fazendo de cada canção uma experiência profundamente emocional. Sua música é contemporânea sem abrir mão de dialogar com uma linhagem que passa por artistas como Tim Maia, Djavan e Gilberto Gil.

Tim Bernardes

Antes de se tornar referência solo, Tim Bernardes foi o vocalista e compositor central de O Terno, banda paulistana que passou anos construindo uma sonoridade própria longe dos holofotes. Quando decidiu caminhar sozinho, levou consigo uma característica que poucas carreiras solo conseguem sustentar: a capacidade de fazer canções que parecem pertencer a um tempo anterior ainda que com autenticidade.

Seu disco “Recomeçar” (2017) não tenta seguir tendências. As referências são claras: Milton Nascimento, Caetano Veloso e o universo do Clube da Esquina, mas sua música não soa como uma reprodução desses artistas. Tim incorpora essas influências de forma tão natural que elas deixam de ser uma homenagem explícita e passam a fazer parte de sua própria identidade musical. O amor, o tempo e a memória aparecem como temas recorrentes, tratados com uma maturidade que surpreende em alguém que começou a carreira tão jovem.

Xênia França

Xênia França construiu uma obra elegante, sofisticada e difícil de enquadrar em um único gênero. Sua música atravessa MPB, soul, R&B e jazz, sempre com a voz ocupando o centro da narrativa. Mais do que misturar referências, ela faz com que todas conversem entre si. Desde o álbum “Xênia” (2017), a cantora vem consolidando um repertório em que ancestralidade, afeto e espiritualidade aparecem sem excesso de explicações. Há um cuidado evidente com os arranjos e uma interpretação precisa, que faz cada canção encontrar exatamente o tom de que precisa.

Os Gilsons

Francisco, João e José Gil poderiam ter seguido o caminho mais fácil e se apoiado no peso do sobrenome que carregam. Em vez disso, transformaram essa herança em ponto de partida para criar uma identidade própria. Embora a influência de Gilberto Gil seja perceptível, o trio encontrou uma sonoridade singular, que dialoga com a tradição da música brasileira sem depender dela para se afirmar.

A sonoridade dos Gilsons combina MPB, samba, reggae, música baiana e pop com uma leveza que não esconde a sofisticação dos arranjos. Há algo de familiar nas canções deles, uma sensação de que elas pertencem à memória afetiva da música brasileira, mas sem parecerem presas ao passado. “Partiu” (2019) e “NASA” (2020), dois EPs lançados antes do álbum de estreia, já mostravam que os Gilsons tinham uma proposta artística consistente e personalidade suficiente para caminhar além da própria linhagem familiar.

Luedji Luna

Poucas artistas conseguiram renovar a MPB recente de maneira tão pessoal quanto Luedji Luna. Suas canções nascem da experiência individual, mas nunca se limitam a ela. Amor, deslocamento, identidade e pertencimento aparecem como temas recorrentes, tratados com delicadeza e profundidade. Em “Um Corpo no Mundo” (2017) e “Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água” (2020), Luedji combina a canção brasileira com o jazz e sonoridades africanas de forma natural, criando uma identidade musical própria e reconhecível. Os arranjos respiram, deixam espaço para a voz e para o silêncio, enquanto suas letras revelam novas camadas a cada escuta.

Criolo

Embora tenha se tornado conhecido pelo rap, Criolo sempre fez música brasileira em sentido amplo. Desde “Nó na Orelha” (2011), sua obra circula com naturalidade entre samba, reggae, bolero, afrobeat e MPB, sem tratar essas linguagens como compartimentos separados. Essa relação fica ainda mais evidente em “Espiral de Ilusão” (2017), disco dedicado ao samba. Longe de representar uma mudança de rumo, o álbum revela uma faceta que sempre esteve presente em sua trajetória. Para quem conhece apenas o Criolo do rap, é uma porta de entrada para descobrir um compositor profundamente ligado à tradição da canção brasileira.

Juçara Marçal

Juçara Marçal ocupa um lugar único na música brasileira contemporânea. Dona de uma voz potente e expressiva, ela construiu uma obra que atravessa samba, música de terreiro, rock, eletrônica e poesia sem perder de vista a força da canção. Em vez de escolher entre tradição e experimentação, faz das duas o ponto de partida para criar uma linguagem própria. Seus discos mostram uma artista que nunca teve medo de desafiar convenções. Em “Delta Estácio Blues” (2021), um dos trabalhos mais celebrados da música brasileira recente, essas influências se encontram em arranjos inventivos e interpretações intensas. O resultado é uma obra que amplia as possibilidades da MPB e prova que tradição também pode ser sinônimo de reinvenção.

Tietê

A Tietê faz parte de uma geração de bandas que entende a MPB como um território aberto, onde diferentes referências convivem sem disputar espaço. Em suas canções, jazz, rock, música brasileira e arranjos vocais se encontram de maneira orgânica, criando um som que soa familiar mesmo quando foge dos caminhos mais conhecidos. Essa identidade ganhou um novo capítulo em “Tamisa” (2025), álbum gravado no histórico Abbey Road Studios, em Londres. Sem abrir mão das influências da Vanguarda Paulista e de nomes como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Grupo Rumo, a banda amplia sua paleta sonora com arranjos ainda mais sofisticados e uma produção que valoriza o trabalho coletivo entre vozes e instrumentos.

Esses artistas mostram que a MPB nunca deixou de existir. Ela apenas passou a ocupar outros espaços, dialogar com novas linguagens e encontrar diferentes maneiras de contar as mesmas inquietações humanas. Entre o samba, o soul, o rap, o jazz e tantas outras influências, a canção brasileira continua se transformando sem perder aquilo que sempre a definiu: a capacidade de emocionar, provocar e permanecer.

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