segunda-feira, 20 de julho de 2026Noticias em tempo real
Romances e Leituras
Romances e Leituras
Notícias

Natal Amargo: lições de Almodóvar sobre luto e arte

Por Romances e Leituras · · 2 min de leitura
Natal Amargo: lições de Almodóvar sobre luto e arte
(Divulgação) O luto não desaparece porque foi ignorado

O novo filme de Pedro Almodóvar, “Natal Amargo”, aborda o luto e a criação artística como ponto de partida para uma reflexão sobre trabalho, sofrimento e transformação. A obra, que estreou no Brasil no mês passado, venceu o prêmio de melhor trilha sonora no festival de Cannes.

A trama acompanha Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de publicidade que perde a mãe em dezembro e, em vez de parar, acelera o ritmo de trabalho. O luto, ignorado, acaba por invadir sua vida com força. Em paralelo, o cineasta Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia) enfrenta um bloqueio criativo de cinco anos e decide usar as experiências das pessoas ao seu redor como matéria-prima para um novo roteiro, sem o conhecimento delas.

O filme mostra que o trabalho não é um lugar seguro para guardar a dor. Elsa acredita estar bem, mas o luto não desaparece por ser ignorado. A cultura de valorizar quem segue em frente sem sentir as perdas é questionada pela narrativa, que expõe as consequências de manter o ritmo às custas das emoções.

Outra lição é que nem toda história nos pertence. Raúl observa pessoas ao seu redor para superar o bloqueio, mas sua ex-assistente Mônica reconhece sua própria vida no roteiro, sem ter sido consultada. O filme não condena nem absolve o personagem, criando uma zona de reflexão sobre a exposição da vida alheia.

As pausas também são apresentadas como parte do caminho. Ambos os personagens estão em crise, e o filme mostra esses estados como inevitáveis, não como falhas. Raúl não perdeu o talento, mas o contato com o que é real. O espaço vazio e o tempo parado são tratados como naturais e importantes para o desenvolvimento pessoal.

Por fim, “Natal Amargo” sugere que nem tudo precisa ser resolvido para seguir em frente. O filme não tem um desfecho claro, e a ausência de um final feliz é vista como uma abordagem honesta. A vida real raramente oferece momentos de virada, e o que importa é atravessar o processo, mesmo sem uma transformação visível.

Reflexões sobre luto e criação

Raúl Durán é um alter ego declarado do próprio Almodóvar, com gestos e aparência que espelham o diretor. O filme usa essa ficção dentro da ficção para questionar o que fazemos com o que perdemos e onde guardamos o que não conseguimos sentir.

O longa deixa mais perguntas do que respostas, convidando o público a refletir nos dias seguintes à sessão. A obra aborda como o esgotamento pode aparecer como irritação ou sensação de estar presente em tudo e em nada ao mesmo tempo, sem sintomas físicos claros.

Compartilhar: WhatsApp Facebook X

Leia também