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4 vozes indígenas para salvar o planeta

Por Romances e Leituras · · 4 min de leitura
4 vozes indígenas para salvar o planeta
Reprodução) Autor de livros como ‘Histórias de índio’, ‘Kabá Darebu&#8217

Diante dos desafios ambientais, é preciso ouvir quem há séculos cuida das florestas e mantém uma relação de equilíbrio com a natureza. Ventos fortes, enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, queimadas, deslizamentos e o avanço do nível do mar são notícias cada vez mais comuns no cotidiano das grandes cidades. Mesmo assim, muitas pessoas não percebem a dimensão dessas transformações.

Governos e instituições internacionais se reúnem para buscar formas de conter o aquecimento global. No entanto, os povos indígenas, que há séculos ajudam a proteger as florestas e a biodiversidade por meio de seus territórios, conhecimentos e modos de vida, ainda têm pouco espaço nessas discussões. No Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado em 09 de agosto, lideranças indígenas que estão na linha de frente da defesa das florestas e do enfrentamento à crise climática compartilharam suas reflexões.

Daniel Munduruku, escritor premiado, educador e ativista dos direitos indígenas, com doutorado em Educação pela USP, explica que, à medida que começamos a pensar no território como parte de nós, naturalmente vamos ter mais cuidado com a Terra. “Os povos indígenas estão conectados com a natureza de tal maneira que conseguem equilibrar a experiência de vida com as suas necessidades físicas, biológicas e humanas, justamente por terem entendimento a respeito da natureza, que não é o entendimento economicista, ou de riqueza, é o entendimento de partilha”, afirma.

Para ele, o pensamento ocidental se baseia na vida a partir da produção de riquezas e, com isso, passa por cima de qualquer empecilho. A proposta seria que o Estado brasileiro se fizesse mais presente na Amazônia, seja por meio do exército, das Forças Armadas, da Polícia Federal ou da Polícia Ambiental. “Iríamos perceber a diminuição das mortes dos indígenas, das perseguições de lideranças populares e de pessoas que lutam pelo meio ambiente. Mas temos visto o contrário.” O Brasil tem potencial para se tornar uma referência mundial no enfrentamento à crise climática, já que concentra recursos como água doce, florestas e biodiversidade. Para isso, seria necessário valorizar esse patrimônio sem reduzi-lo a mais um produto de consumo.

Davi Kopenawa, xamã, escritor e líder político Yanomami, autor de “A queda do céu” e presidente da Hutukara Associação Yanomami, pediu ajuda da população brasileira para pressionar os “homens de dinheiro” a interromperem a destruição da natureza. “Vocês são jovens, mulheres e homens da cidade, nasceram aqui. Crescem sem conhecer a floresta. Não conhecem a alma das montanhas, dos rios, das árvores. Os professores de vocês não apresentaram para vocês o conhecimento tradicional da nossa mãe Terra. Mas eu também sou professor, só que professor da floresta. Por isso, falo: vocês precisam conhecer a sabedoria dela”, disse durante a Bienal do Livro de São Paulo.

Para o povo Yanomami, a floresta não é apenas um espaço que precisa ser protegido. Ela faz parte da vida, da cultura e da forma como eles enxergam o mundo. É dela que vêm a água limpa, o bem-estar e a alegria. “É a partir disso que olhamos a beleza do universo”, explica. Um dos caminhos para enfrentar essa crise está na aproximação com os povos originários e com os conhecimentos que preservam há gerações. “Vocês podem escutar, aprender, pensar. Não é para aprender a nossa língua yanomami, é para aprender a sonhar, aprender a se apaixonar pela floresta. Precisamos nos aproximar”, conclui.

Ailton Krenak, autor do livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, reflete sobre o consumo desenfreado dos recursos do planeta. Para ele, a ideia de que outros mundos possam ser habitados não passa de um autoengano. “A nossa experiência como seres que tiveram origem no planeta Terra, essa experiência que nos constitui de 70% de água e outros materiais que constituem nosso corpo, só dá para fazer aqui na Terra.” Krenak observa que a lógica da produtividade afeta a maneira como nos relacionamos com a natureza. Ao enxergar tudo a partir de sua utilidade, deixamos de reconhecer a vida como uma experiência que tem valor por si mesma. “A vida não é para ser útil. Isso é uma besteira. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela. A vida é fruição. A vida é uma dança”, afirma.

A relação que estabelecemos com a natureza também influencia a maneira como percebemos as mudanças ambientais. Krenak explica que, para quem vive na floresta, essas transformações são sentidas de forma mais concreta. Quando um caçador precisa caminhar durante dias para encontrar animais que antes viviam perto da aldeia, ele percebe que o mundo ao seu redor está desaparecendo. Nas cidades, essa percepção costuma ser mais distante, já que quase tudo parece estar sempre disponível.

Sonia Guajajara, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas, atua na defesa dos territórios e dos direitos dos povos originários. Ela critica um estilo de vida baseado no acúmulo de bens e afirma que uma de suas missões é fazer com que as pessoas reconheçam o potencial dos povos indígenas para preservar a Terra. “Nosso modo de vida naturalmente age como uma barreira de proteção contra o caos. O mundo precisa muito de nós, porque o que a gente faz segura toda essa onda de desastre e destruição”, resume.

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