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Literatura como espelho: autoconhecimento através da leitura

Por Romances e Leituras · · 2 min de leitura
Literatura como espelho: autoconhecimento através da leitura
(Foto: Acervo pessoal) Catharina e sua companhia preferida: um livro

Desde o momento em que um livro é aberto, um encontro particular se inicia. Letra por letra, palavra por palavra, capítulo após capítulo, algo começa a se mover por dentro e por fora. A literatura amplia o mundo ao redor e também aprofunda o que existe dentro de cada um.

Esse fenômeno fica mais nítido quando o leitor se reconhece em um personagem ou situação. Catharina Mattavelli, psicóloga e criadora de conteúdo sobre literatura, diz que se reconhecer em um personagem muda a forma como o cérebro processa a história. Segundo ela, essa conexão emocional faz com que a pessoa esqueça que a ficção é uma mentira, levando a história como algo real.

Para Catharina, essa imersão estimula o encontro de sentimentos e descobertas sobre nós mesmos. Ela observa que as pessoas falam muito sobre a literatura provocar empatia, mas ela gosta ainda mais de como a leitura estimula o encontro consigo mesmo.

Nem toda leitura abraça o leitor. Algumas provocam ou repulsam. Catharina afirma que esses afetos incômodos também dizem muito sobre quem somos e sobre a sociedade. Ela diz que é poderoso quando a literatura consegue extrair elementos supostamente escondidos que as pessoas fingem não enxergar, como o lado sujo, grotesco e violento.

Catharina acredita que certas obras nos encontram quando estamos prontos para elas. Ela tenta reler livros que leu cedo demais, como "Dom Casmurro" e "A redoma de vidro", e percebe que a experiência atual é mais profunda, pois sua bagagem permite acessar entrelinhas que antes passaram despercebidas.

Valdi Ercolani, escritor de 87 anos, concorda que a prontidão interna é tudo. Para ele, certos livros encontram o leitor no momento certo da maturidade interna, quando ele já desenvolveu receptividade e abertura mental para absorvê-los.

Catharina distingue dois tipos de leitura: a que distrai e a que mobiliza. A leitura que distrai funciona como entretenimento puro, sem exigir elaboração. Já a leitura que mobiliza faz a pessoa parar em uma frase e continua reverberando depois que o livro é fechado, provocando inquietações.

Ercolani classifica ler e escrever como dois movimentos da mesma jornada interior. Na leitura, ele se encontra por espelhamento, reconhecendo sentimentos latentes. Na escrita, ele dá forma ao que viveu e aprendeu. Para ele, a leitura reflete curiosidades, enquanto a escrita revela quem ele é.

Sobre o consumo acelerado, Catharina diz que ouve elogios sobre ler rápido, mas o efeito é um reflexo do consumo rápido das redes sociais. Ela afirma que ler profundamente exige uma duração interna, um estado em que o sujeito é atravessado pelo texto. Ler precisa ser um gesto lento de reconhecimento de si. Ercolani acrescenta que a leitura apressada captura apenas a superfície do texto, limitando o encontro consigo mesmo.

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