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Literatura como caminho para o autoconhecimento

Por Romances e Leituras · · 3 min de leitura
Literatura como caminho para o autoconhecimento
(Foto: Acervo pessoal) Catharina e sua companhia preferida: um livro

A partir do instante em que um livro é aberto, um encontro particular se inicia. Letra por letra, palavra por palavra, algo começa a se mover por dentro e por fora. A literatura amplia o mundo ao redor e aprofunda o que existe dentro de cada um.

Esse fenômeno fica mais nítido quando o leitor se reconhece em um personagem ou situação. Catharina Mattavelli, psicóloga e criadora de conteúdo sobre literatura, explica que essa conexão emocional muda a forma como o cérebro processa a história. "A gente esquece por um tempo que tudo aquilo é uma mentira, porque no fim a ficção é uma grande mentira, mas a gente leva aquilo como uma história tão real quanto a nossa."

Segundo Catharina, essa imersão estimula o encontro de sentimentos ou descobertas sobre nós mesmos. Ela observa que as pessoas falam muito sobre como a literatura provoca empatia, mas ela gosta ainda mais de como ela estimula o encontro consigo mesmo.

No entanto, nem toda leitura abraça. Algumas provocam ou repulsam. Para Catharina, esses afetos incômodos também dizem muito sobre quem somos e sobre a sociedade. "É poderoso demais a literatura que não é feita para agradar, escrita por alguém sem medo de gerar incômodo ou rejeição." Ela acrescenta que o lado sujo, grotesco, violento e melancólico é muito do que somos e encontramos diariamente. "A literatura não precisa ter esse papel, mas é muito poderoso quando consegue extrair esses elementos supostamente escondidos."

O livro que chega na hora certa

Catharina acredita que certas obras nos encontram quando estamos prontos para elas. Ela tenta reler livros que pensa ter lido cedo demais. "Dom Casmurro", "A redoma de vidro", "O estrangeiro" e "A metamorfose" foram alguns que ela releu e parecia a primeira vez. "A Catharina de hoje é muito diferente e possui uma bagagem muito maior do que a de oito anos atrás. Essa bagagem permite acessar as entrelinhas que antes passaram despercebidas."

Valdi Ercolani, escritor de 87 anos que publicou seu primeiro livro aos 60, concorda. Para ele, a prontidão interna é tudo. "Certos livros nos encontram não por imposição externa ou acaso, mas no momento certo da maturidade interna do indivíduo." Ele diz que a frase "quando o aluno está pronto, o mestre aparece" adquire pleno sentido.

Leitura que distrai e leitura que mobiliza

Catharina diferencia dois tipos de leitura. A que distrai funciona como fluxo contínuo, mas não permanece. "É aquele livro ótimo e muito necessário em dias que a gente não quer pensar em grandes coisas. Gera gratificação imediata e está mais próxima do entretenimento puro." Já a leitura que mobiliza faz a pessoa parar em uma frase ou imagem. "Ela não se deixa consumir rapidamente. Continua reverberando depois que fechamos o livro, provoca inquietações. O tempo da leitura desacelera e cria condições para que algo em você se torne visível."

Dois movimentos da mesma jornada

Ercolani reflete sobre a relação entre ler e escrever como dois movimentos da mesma jornada interior. "Na leitura, eu me encontro por espelhamento. Reconheço nas palavras dos autores sentimentos latentes em mim. Na escrita, dou forma àquilo que vivi e aprendi." Ele distingue que a leitura reflete curiosidades e indica o que atrai ou preenche. Já a escrita é um ato de criação que revela quem ele é. Quando alguém se reconhece em seus textos, ele vê um eco de algo maior, uma corrente invisível que atravessa experiências humanas semelhantes.

O que se perde no consumo acelerado

Catharina admite que o tema causa tristeza. "Ouço elogios sobre 'ler rápido' ou 'conseguir ler tantos livros em pouco tempo', quando o efeito é o reflexo do consumo rápido das redes sociais." Ela diz que ler profundamente exige uma duração interna, um estado em que o sujeito é atravessado pelo texto. "Ler é e precisa ser um gesto lento de reconhecimento de si. Há uma perda da construção de uma interioridade, desse espaço onde o sujeito pode experimentar vozes e conflitos que não são seus."

Ercolani corrobora: "Perde-se o tempo, e sem tempo não há profundidade. A leitura apressada captura apenas a superfície do texto. Perdemos a capacidade de imersão reflexiva, que permite à literatura funcionar como espelho de si mesmo."

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