Emmanuel Carrère: um escritor que investiga contradições

Em vez de explicar o mundo, o escritor francês Emmanuel Carrère investiga suas contradições e convida o leitor a fazer o mesmo. Quem abre um livro do autor dificilmente sai dele com respostas prontas. Em suas obras, reportagem, autobiografia, ensaio e romance se misturam em narrativas que recusam conclusões fáceis e transformam o próprio autor em parte da investigação.
Nascido em Paris, em dezembro de 1957, Carrère formou-se no Institut d’Études Politiques e construiu uma trajetória que inclui roteiros e direção, mas encontrou na literatura seu território mais fértil. Ao longo das últimas décadas, acumulou prêmios como o Femina, o Renaudot, o FIL de Literatura, o Prêmio da Biblioteca Nacional da França e o Princesa de Astúrias.
A especialista em literatura contemporânea Catharina Mattavelli identifica o centro das reflexões do autor: a pergunta “quem é esse outro?”. Segundo ela, Carrère se coloca em cena junto com essa questão, analisando a si mesmo a partir do outro. “A honestidade e a coragem de colocar a própria investigação em cena é um dos grandes encantos que nos leva a questionar também quem somos nós quando tentamos compreender o outro”, afirma.
A ascensão de Carrère ao centro do debate literário contemporâneo não é um acidente. Catharina traça essa conexão com o crescimento do interesse por narrativas que partem do real, como biografias, memórias e jornalismo literário. “Carrère se aproxima de pessoas marcadas por perdas, tragédias ou acontecimentos extraordinários, o que combina com as inquietações do nosso tempo”, diz.
Ler Carrère não é uma experiência confortável, e isso faz parte do objetivo. Catharina é direta quando fala do próprio percurso como leitora: “É muito comum sentir raiva, desgosto e até mesmo asco ao ler algumas das obras do autor. Me lembro de sentir uma forte repulsa enquanto lia ‘Um romance russo’ e ‘O adversário’”. Para ela, um bom autor obriga o leitor a confrontar os próprios limites de compreensão e julgamento.
“Ioga” (Alfaguara), lançado em 2020, é talvez o caso mais extremo desse método. Anunciado como um livro sobre meditação, transformou-se em algo completamente diferente durante o processo de escrita. A série de atentados terroristas em Paris interrompeu o retiro de meditação que Carrère havia iniciado para escrever o livro, e essa interrupção entrou no texto também. O resultado é uma obra que confronta diretamente o modelo dominante de narrativa pessoal, aceitando a desordem, a fragilidade e a incompletude como partes inevitáveis da existência.
Para quem ainda não conheceu a obra de Carrère, Catharina recomenda “O Adversário” (Alfaguara), livro que reconstrói a história real de Jean-Claude Romand, um homem que durante quase vinte anos sustentou uma identidade falsa antes de assassinar a própria família. Para quem já conhece e quer ir mais fundo, a indicação é “Um Romance Russo” (Alfaguara), onde o autor mergulha fundo na compreensão das forças familiares, históricas e afetivas que moldaram sua identidade.


