Vozes indígenas para o futuro do planeta

Diante dos desafios ambientais, é preciso ouvir quem há séculos cuida das florestas e mantém uma relação de equilíbrio com a natureza. Ventos fortes, enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, queimadas, deslizamentos e o avanço do nível do mar. As notícias sobre a crise climática ocupam cada vez mais espaço no cotidiano das grandes cidades, ainda que, tão distantes dos ciclos da natureza, muitas pessoas não percebam a dimensão dessas transformações.
Enquanto isso, governos e instituições internacionais se reúnem em busca de caminhos para conter o aquecimento global e enfrentar seus impactos. No entanto, os povos indígenas, que há séculos ajudam a proteger as florestas e a biodiversidade por meio de seus territórios, conhecimentos e modos de vida, ainda têm pouco espaço nessas discussões.
Diante do Dia Internacional dos Povos Indígenas, que será celebrado neste domingo (09/08), a Vida Simples reuniu reflexões de lideranças indígenas que estão na linha de frente da defesa das florestas e do enfrentamento à crise climática.
Daniel Munduruku
Escritor premiado, educador e ativista dos direitos indígenas, com doutorado em Educação pela USP (Universidade de São Paulo), Daniel Munduruku explica que, à medida em que começamos a pensar no território como parte de nós, naturalmente vamos ter mais cuidado com a Terra.
“Os povos indígenas estão conectados com a natureza de tal maneira que conseguem equilibrar a experiência de vida com as suas necessidades físicas, biológicas e humanas, justamente por terem entendimento a respeito da natureza, que não é o entendimento economicista, ou de riqueza, é o entendimento de partilha”, afirma o escritor em entrevista a Revista Casa Comum.
Para ele, o pensamento ocidental se baseia na vida a partir da produção de riquezas e, com isso, passa por cima de qualquer empecilho. A proposta, então, seria que o estado brasileiro se fizesse mais presente na Amazônia, seja por meio do exército, das Forças Armadas, da Polícia Federal, da Polícia Ambiental. “Iríamos perceber a diminuição das mortes dos indígenas, das perseguições de lideranças populares e de pessoas que lutam pelo meio ambiente. Mas temos visto o contrário.”
A ideia é que o Brasil tem potencial para se tornar uma referência mundial no enfrentamento à crise climática, já que concentra recursos essenciais, como água doce, florestas e biodiversidade. Para isso, porém, seria necessário valorizar esse patrimônio sem reduzi-lo a mais um produto de consumo. Segundo ele, a falta de compromisso e de responsabilidade dos governantes impede o país de assumir o protagonismo que poderia ter na construção de uma relação mais equilibrada com a natureza.
Davi Kopenawa
“Hoje preciso mais do pessoal da cidade. Preciso de apoio. É preciso apoiar a nossa luta, porque estamos lutando para defender a nossa floresta, para que nossa terra tenha saúde”, afirmou o xamã e escritor, Davi Kopenawa, durante a Bienal do Livro de São Paulo.
Durante o discurso, ele pediu a ajuda da população brasileira para pressionar os “homens de dinheiro” a interromperem a destruição da natureza. Para isso, defende que é preciso parar com o pensamento guiado apenas pelo lucro.
“Vocês são jovens, mulheres e homens da cidade, nasceram aqui. Crescem sem conhecer a floresta. Não conhecem a alma das montanhas, dos rios, das árvores. Os professores de vocês não apresentaram para vocês o conhecimento tradicional da nossa mãe Terra. Mas eu também sou professor, só que professor da floresta. Por isso, falo: vocês precisam conhecer a sabedoria dela.”
Para o povo Yanomami, a floresta não é apenas um espaço que precisa ser protegido. Ela faz parte da vida, cultura e da forma como eles enxergam o mundo. É dela que vêm a água limpa, o bem-estar e a alegria. “É a partir disso que olhamos a beleza do universo”, explica.
Para ele, um dos caminhos para enfrentar essa crise está na aproximação com os povos originários e com os conhecimentos que preservam há gerações. “Vocês podem escutar, aprender, pensar. Não é para aprender a nossa língua yanomami, é para aprender a sonhar, aprender a se apaixonar pela floresta. Precisamos nos aproximar. Vocês precisam se aproximar de nós.”
Ailton Krenak
Autor do livro “Ideias para adiar o fim do mundo” (Companhia das Letras), Ailton Krenak reflete sobre o consumo desenfreado dos recursos do planeta e a esperança de que outros mundos possam ser habitados. Para ele, essa ideia não passa de um autoengano. “A nossa experiência como seres que tiveram origem no planeta Terra, essa experiência que nos constitui de 70% de água e outros materiais que constituem nosso corpo, só dá para fazer aqui na Terra.”
Krenak também observa que a lógica da produtividade afeta a maneira como nos relacionamos com a natureza e, consequentemente, o valor que atribuímos a ela. Ao enxergar tudo a partir de sua utilidade, deixamos de reconhecer a vida como uma experiência que tem valor por si mesma.
“A vida não é para ser útil. Isso é uma besteira. A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade para ela. A vida é fruição. A vida é uma dança. Só que ela é uma dança cósmica e a gente quer reduzi-la a uma coreografia utilitária, a uma biografia: alguém nasceu, fez isso, fez aquilo, fundou uma cidade, inventou o fordismo, fez a revolução, fez um foguete, foi para o espaço… […] Nós temos de ter coragem de ser radicalmente vivos. E não negociar sobrevivência.”
A relação que estabelecemos com a natureza também influencia a maneira como percebemos as mudanças ambientais. Krenak explica que, para quem vive na floresta, essas transformações são sentidas de forma muito mais concreta. Quando um caçador precisa caminhar durante dias para encontrar animais que antes viviam perto da aldeia, ele percebe que o mundo ao seu redor está desaparecendo.
Nas cidades, essa percepção costuma ser mais distante, já que quase tudo parece estar sempre disponível. Basta sair de casa para encontrar pão, remédios, mercados e hospitais, como se esses recursos existissem de maneira automática e independente da natureza.
Sonia Guajajara
“Sabe aquela historinha do índio pescador? Aquela que tem um índio pescando na beira do rio e chega um branco e fala: ‘Cara, tu pega peixe demais. A gente tem que vender isso aqui, ganhar muito dinheiro para poder comprar um barco, ganhar ainda mais, comprar mais barcos para alugar para os outros pescarem por nós. E então a gente vai poder ficar tranquilo aqui, só pescando’. E o índio responde: ‘Mas eu vou fazer tudo isso para quê? Eu já estou pescando aqui tranquilo’”, resume a deputada federal Sonia Guajajara, em entrevista à Believe Earth.
Além de criticar um estilo de vida baseado no acúmulo de bens, Sonia afirma que uma de suas missões é fazer com que as pessoas reconheçam o potencial dos povos indígenas para preservar a Terra. “Nosso modo de vida naturalmente age como uma barreira de proteção contra o caos. O mundo precisa muito de nós, porque o que a gente faz segura toda essa onda de desastre e destruição.”


