Leitura como autoconhecimento: descubra-se no outro
Ao abrir um livro, inicia-se um encontro particular. Letra por letra, palavra por palavra, algo se move por dentro e por fora. A literatura amplia o mundo ao redor e aprofunda o que existe dentro de cada um.
Esse fenômeno fica mais nítido quando o leitor se reconhece em um personagem, situação ou diálogo. Catharina Mattavelli, psicóloga e criadora de conteúdo sobre literatura, explica que essa conexão emocional muda a forma como o cérebro processa a história. Segundo ela, a imersão estimula o encontro de sentimentos ou descobertas inéditas sobre nós mesmos.
Nem toda leitura abraça. Algumas provocam ou repulsam. Para Catharina, esses afetos incômodos também dizem muito sobre quem somos. Ela destaca o poder da literatura que não é feita para agradar, que extrai elementos supostamente escondidos que fingimos não enxergar.
Catharina acredita que certas obras nos encontram quando estamos prontos para elas. Reler livros é uma boa estratégia de autopercepção. Ela cita exemplos como "Dom Casmurro", "A redoma de vidro", "O estrangeiro" e "A metamorfose".
Valdi Ercolani, escritor de 87 anos, concorda. Para ele, a prontidão interna é tudo. Certos livros encontram o leitor no momento certo da maturidade interna, quando ele já desenvolveu receptividade e abertura mental para absorvê-los.
Catharina distingue dois tipos de leitura. A que distrai funciona como fluxo contínuo, não permanece e gera gratificação imediata. Já a leitura que mobiliza faz a pessoa parar em uma frase, não se deixa consumir rapidamente e continua reverberando depois que o livro é fechado.
Ercolani classifica ler e escrever como dois movimentos da mesma jornada interior. Na leitura, ele se encontra por espelhamento. Na escrita, dá forma ao que viveu e aprendeu. A leitura reflete suas curiosidades, enquanto a escrita revela quem ele é.
Sobre o consumo acelerado, Catharina admite que o tema causa tristeza. Ela ouve elogios sobre ler rápido, mas o efeito é o reflexo do consumo rápido das redes sociais. Ler profundamente exige uma duração interna, um estado em que o sujeito é atravessado pelo texto.
Ela afirma que ler é um gesto lento de reconhecimento de si. Em um regime de estímulos rápidos, a interioridade tende a diminuir. Ercolani acrescenta que, sem tempo, não há profundidade. A leitura apressada captura apenas a superfície do texto.


