Como a leitura revela o que existe em você

Ao abrir um livro, um encontro particular se inicia. Letra por letra, a literatura amplia o mundo ao redor e aprofunda o que existe dentro de cada um. O fenômeno fica mais nítido quando o leitor se reconhece em um personagem ou situação.
Catharina Mattavelli, psicóloga e criadora de conteúdo sobre literatura, explica que se reconhecer em um personagem muda a forma como o cérebro processa a história. “A gente esquece por um tempo que tudo aquilo é uma mentira, porque no fim a ficção é uma grande mentira, mas a gente leva aquilo como uma história tão real quanto a nossa.” Para ela, essa imersão estimula o encontro de sentimentos ou descobertas sobre nós mesmos.
Nem toda leitura abraça. Algumas provocam ou repulsam. Catharina afirma que esses afetos incômodos também dizem muito sobre quem somos. “É poderoso a literatura que não é feita para agradar, escrita por alguém sem medo de gerar incômodo. O lado sujo, grotesco, violento e melancólico é muito do que somos e encontramos ao nosso redor.”
Catharina acredita que certas obras nos encontram quando estamos prontos para elas. Ela tenta reler livros, principalmente aqueles que pensa ter lido cedo demais. “Dom Casmurro”, “A redoma de vidro” e “A metamorfose” foram alguns que decidiu reler e parecia a primeira vez. “A Catharina de hoje possui uma bagagem muito maior do que a de oito anos atrás, permitindo acessar as entrelinhas.”
O escritor Valdi Ercolani, de 87 anos, publicou seu primeiro livro aos 60. Para ele, a prontidão interna é tudo. “Certos livros nos encontram no momento certo da maturidade interna do indivíduo, quando ele já desenvolveu receptividade e abertura mental para absorvê-los.”
Catharina distingue dois tipos de leitura: a que distrai e a que mobiliza. A leitura que distrai funciona como fluxo contínuo, não permanece e gera gratificação imediata. Já a leitura que mobiliza faz a pessoa parar em uma frase ou imagem. “Ela não se deixa consumir rapidamente. Continua reverberando depois que fechamos o livro, provoca inquietações e cria condições para que algo em você se torne visível.”
Ercolani classifica ler e escrever como “dois movimentos da mesma jornada interior”. Na leitura, ele se encontra por espelhamento. Na escrita, dá forma ao que viveu e aprendeu. “A leitura reflete minhas curiosidades. A escrita é um ato de criação, revelando quem eu sou e minha verdade.”
Catharina, que trabalha com literatura nas redes, admite que o consumo acelerado causa tristeza. “Ouço elogios sobre ‘ler rápido’ ou ‘conseguir ler tantos livros em pouco tempo’. Ler profundamente exige uma duração interna, um estado em que o sujeito é atravessado pelo texto, causando um efeito duradouro.” Ela afirma que ler é um gesto lento de reconhecimento de si. “Em um regime de estímulos rápidos, a interioridade tende a diminuir porque não encontra tempo para se elaborar.”


