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Álbum de figurinhas: vínculos que vão além do futebol

Por Romances e Leituras · · 3 min de leitura
Álbum de figurinhas: vínculos que vão além do futebol
Álbum de figurinhas: vínculos que vão além do futebol

Em época de Copa do Mundo, a busca por completar o álbum de figurinhas rompe barreiras sociais. Na porta das bancas, no intervalo da escola, em mesas de praça de alimentação e em grupos de redes sociais, a cena se repete. Pessoas de idades diferentes seguram montes de figurinhas, espalham as repetidas e iniciam um ritual de trocas. Em poucos minutos, desconhecidos conversam como se já se conhecessem.

O álbum de figurinhas atravessa gerações. Pais que colecionaram na infância apresentam aos filhos a lógica das trocas e dos pacotinhos. Avós acompanham tabelas e aprendem nomes de jogadores. Crianças negociam com adultos de igual para igual. Durante algumas semanas, o álbum cria um idioma comum entre pessoas que talvez não encontrassem outro assunto para se aproximar.

O psicanalista e neuropsicólogo Jorge Guedes explica que o colecionismo mobiliza dimensões profundas da experiência humana. “Do ponto de vista neuropsicológico, cada nova aquisição ativa o sistema dopaminérgico, associado à motivação e ao prazer. Já na perspectiva psicanalítica, colecionar pode representar uma tentativa de organizar o mundo interno, dar sentido ao tempo e construir continuidade psíquica.”

A psicóloga Lívia Barreto Silva observa que o processo ativa mecanismos de recompensa e vínculo emocional. “A cada nova figurinha ou troca, a pessoa experimenta pequenas recompensas emocionais. O colecionismo se associa a pensamentos como ‘isso me conecta com momentos bons’, o que fortalece o vínculo com a atividade.”

O universo afetivo das figurinhas

As figurinhas guardam fases da vida. Muita gente lembra exatamente onde estava quando conseguiu uma figurinha difícil ou quem ajudou a completar determinada página. O álbum também serve como uma mídia física que marca uma época. O que torna o universo das figurinhas especialmente afetivo é que quase nada acontece sozinho. Diferente de outras coleções, completar um álbum depende do outro. É preciso trocar, negociar e circular pela cidade atrás da peça que falta.

Durante as Copas, essa lógica ganha uma dimensão coletiva. Pessoas que talvez nunca dividissem uma conversa passam a compartilhar mesas cheias de envelopes abertos. Crianças aprendem a negociar com adultos. Adultos redescobrem brincadeiras que não praticavam havia décadas. O ambiente competitivo do futebol se transforma em convivência. Existe uma horizontalidade rara nesses encontros. Pouco importa profissão, idade ou condição financeira quando alguém encontra a figurinha que o outro procura há semanas.

O álbum como memória compartilhada

Essas trocas ajudam a construir vínculos que ultrapassam o evento esportivo. Famílias acompanham juntas a evolução do álbum. Amigos organizam encontros para abrir pacotes. Pais encontram uma forma concreta de compartilhar memórias da infância. Lívia entende que parte dessa força vem da nostalgia. “Quando o adulto retoma o hábito de colecionar, ele reativa redes cognitivas com pensamentos como ‘esse é um momento simples’ ou ‘isso me faz bem’, o que gera respostas emocionais de conforto e redução de estresse.”

Essa memória afetiva aparece em detalhes específicos: o barulho do pacote sendo aberto, o cheiro do álbum novo, a pilha de repetidas crescendo. Ao contrário de hábitos marcados pelo isolamento das telas, o álbum exige presença e encontro. Existe um senso de comunidade espontâneo que aparece porque todos compartilham a mesma pequena falta.

O ato de completar o álbum também carrega um significado simbólico. O álbum começa cheio de espaços vazios e, aos poucos, ganha forma. Cada figurinha colada carrega tempo, insistência e encontros. “Completar um álbum pode evocar satisfação, orgulho, alívio e uma sensação de identidade consolidada. É uma experiência que simboliza persistência e organização”, afirma Jorge Guedes. Talvez por isso tantas pessoas guardem álbuns antigos mesmo depois que a Copa termina.

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