Álbum de figurinhas: laços que vão além do futebol

Em época de Copa do Mundo, a busca por completar o álbum de figurinhas rompe barreiras sociais. Na porta das bancas, no intervalo da escola, em mesas de praça de alimentação ou em grupos de redes sociais, pessoas de diferentes idades se reúnem para trocar cromos. O ritual é simples: espalham as repetidas, negociam e, em poucos minutos, desconhecidos conversam como velhos amigos.
O álbum atravessa gerações sem perder força. Pais que colecionaram na infância apresentam aos filhos a lógica das trocas e da busca pela figurinha rara. Avós aprendem nomes de jogadores e ajudam a organizar as páginas. Crianças negociam com adultos de igual para igual. Durante algumas semanas, o álbum cria um idioma comum entre pessoas que talvez não encontrassem outro assunto para se aproximar.
O psicanalista e neuropsicólogo Jorge Guedes explica que o colecionismo mobiliza dimensões profundas da experiência humana. “Do ponto de vista neuropsicológico, cada nova aquisição ativa o sistema dopaminérgico, associado à motivação e ao prazer. Na perspectiva psicanalítica, colecionar pode representar uma tentativa de organizar o mundo interno e dar sentido ao tempo.”
Para a psicóloga Lívia Barreto Silva, o processo ativa mecanismos de recompensa e vínculo emocional. “A cada nova figurinha ou troca, a pessoa experimenta pequenas recompensas emocionais, o que aumenta o engajamento. O colecionismo também ajuda a estruturar o comportamento, criando rotina e sensação de progresso.”
O universo afetivo das figurinhas vai além do prazer de colecionar. Muita gente lembra exatamente onde estava quando conseguiu aquela figurinha difícil. O álbum serve como uma espécie de mídia física que marca uma época. Diferente de outras coleções mais individuais, completar um álbum depende do outro. É preciso trocar, negociar e circular pela cidade atrás da peça que falta.
Durante as Copas, essa lógica ganha uma dimensão coletiva. Pessoas que talvez nunca conversassem passam a compartilhar mesas cheias de envelopes abertos. Crianças aprendem a negociar com adultos, que redescobrem brincadeiras de décadas atrás. O ambiente competitivo do futebol se transforma em convivência.
Existe uma horizontalidade rara nesses encontros. Pouco importa profissão, idade ou condição financeira quando alguém encontra a figurinha que o outro procura. O álbum cria pequenas redes de colaboração. Em muitas cidades, pontos de troca viram espaços permanentes de encontro ao longo da Copa.
Essas trocas constroem vínculos que ultrapassam o evento esportivo. Famílias acompanham juntas a evolução do álbum. Amigos organizam encontros para abrir pacotes. Pais encontram uma forma concreta de compartilhar memórias da infância com os filhos. A experiência acontece na prática, sentados lado a lado.
Lívia entende que parte dessa força vem da nostalgia. “Quando o adulto retoma o hábito de colecionar, ele reativa redes cognitivas que geram respostas emocionais de conforto e redução de estresse.” A memória afetiva aparece em detalhes específicos: o barulho do pacote sendo aberto, o cheiro do álbum novo, a pilha de repetidas crescendo.
Ao contrário de hábitos marcados pelo isolamento das telas, o álbum exige presença e encontro. Mesmo quando as trocas começam online, elas terminam em uma mesa compartilhada. Existe um senso de comunidade espontâneo que aparece porque todos compartilham a mesma pequena falta.
O ato de completar o álbum tem um significado simbólico. Ele começa cheio de espaços vazios e, aos poucos, ganha forma. Cada figurinha colada carrega tempo, insistência e encontros. “Não é só o fim, mas tudo o que foi construído ao longo do caminho”, afirma Lívia. Jorge completa: “Completar um álbum simboliza persistência, conquista e a ideia de algo que começa fragmentado e se torna completo.” Talvez por isso tantas pessoas guardem álbuns antigos mesmo depois que a Copa termina.


